14 Nov 2019 Reportagem Químicos e resíduos

De baterias a joias: conheça alternativas ao mercúrio tóxico presente no nosso dia a dia

Photo by UN Environment Programme/ Veejay Villafranca

O mercúrio, um metal pesado tóxico que pode causar problemas de saúde sérios e duradouros, aparece em muitos lugares que você não esperaria. Já se passaram mais de dois anos desde que a Convenção de Minamata entrou em vigor, um tratado global para proteger a saúde humana e o meio ambiente dos efeitos adversos do mercúrio. Mas muitos produtos que contêm mercúrio continuam sendo produzidos em todo o mundo.

“O mercúrio deve ser gerenciado usando uma abordagem circular, que visa proteger a saúde humana e o meio ambiente dos efeitos negativos do mercúrio e seus compostos”, diz Rossana Silva Repetto, Secretária Executiva da Convenção de Minamata.

A boa notícia é que uma ampla gama de alternativas seguras e de alto funcionamento foram desenvolvidas. Graças à Convenção de Minamata, especificamente ao Artigo 4, que exige que os países tomem medidas para eliminar progressivamente a produção e o comércio de produtos que contenham mercúrio, e o Anexo A, que estabelece prazos para esse processo. É apenas uma questão de tempo para que alternativas livres de mercúrio substituam totalmente seus equivalentes mais tóxicos. Antes da terceira Conferência das Partes da Convenção de Minamata, que se reunirá em Genebra de 25 a 29 de novembro, compilamos uma lista de algumas das inovações mais úteis que são 100% livres de mercúrio.

 

Amálgama dentária

Se você já tiver uma certa idade e o seu dentista já lhe disse que você tem uma cárie, há uma boa chance de que esteja andando com uma pequena quantidade de mercúrio na boca. A amálgama dental, usada para preencher as cáries, é tradicionalmente composta de uma mistura de mercúrio e uma liga metálica que contém prata, estanho e cobre. Os cientistas desenvolveram várias alternativas livres de mercúrio para obturações, mas elas tendem a ser mais caras que o amálgama tradicional e não são tão amplamente usadas. As alternativas incluem recheios compostos, que podem ser feitos de quartzo de vidro em pó, sílica ou outras partículas de cerâmica adicionadas a uma base de resina; obturações de ionômero de vidro, que formam uma ligação química com o dente; e incrustações de porcelana ou ouro, que são muito duradouras, mas relativamente caras. Também estão sendo desenvolvidas outras abordagens incluindo laser, ultrassom e tratamento medicamentoso para estimular a regeneração da dentina.

Baterias

Balanças de cozinha, relógios, ponteiros laser, calculadoras de bolso, sapatos infantis que acendem com a pisada - o que esses produtos têm em comum? Todos eles podem exigir baterias tipo botão, que geralmente contêm quantidades muito pequenas de mercúrio. Esse mercúrio não representa ameaça ao meio ambiente ou à saúde humana se as baterias forem usadas e recicladas adequadamente, mas se as baterias acabarem em um incinerador ou em um aterro inadequado, o mercúrio dentro delas poderá vazar e contaminar o ar ou as águas subterrâneas. Outro tipo de bateria que contém esse metal são as de óxido de mercúrio, que  podem fornecer uma corrente estável com uma longa vida útil, ainda são usadas em hospitais e em algumas aplicações militares e comerciais em todo o mundo. No entanto, cientistas desenvolveram uma variedade de alternativas de bateria sem mercúrio, incluindo baterias de lítio, prata e alcalina, que podem funcionar tão bem quanto as que contém mercúrio, embora possam vir com seus próprios desafios ambientais. Esses produtos costumam ser mais caros que as baterias tradicionais, mas seus preços estão caindo à medida que as tecnologias se desenvolvem.

 

Joalheria

Você usa joias de ouro? Nesse caso, é possível que quem tenha extraído o metal que acabou no seu anel, brincos ou colar tenha usado mercúrio para separar o ouro do material circundante. De fato, a mineração de ouro artesanal e em pequena escala tem a maior demanda por mercúrio no mundo; é também a maior fonte emissora de mercúrio de forma combinada na atmosfera e na água. Portanto, sempre que comprar joias, peça ao seu varejista produtos feitos com ouro certificado e sustentável.

 

Queima de carvão

A queima de carvão é a maior fonte de emissões de mercúrio antropogênicas na atmosfera da Terra. Tradicionalmente, a queima de carvão para geração de energia aumentou ao lado do crescimento econômico, assim como suas emissões de mercúrio, que mais do que triplicaram desde 1970. Embora muitas pessoas possam não ter controle direto sobre a origem da eletricidade, elas têm o poder de escolher o que queimam para cozinhar e aquecer suas casas. De fato, a queima doméstica de carvão também é uma fonte significativa de emissões de mercúrio e um risco à saúde. Em casa, você pode optar por queimar madeira em vez de carvão. Você também pode ligar para o seu fornecedor de eletricidade para mudar para fontes de energia mais limpas ou, pelo menos, tomar medidas para reduzir suas emissões de mercúrio. De fato, as usinas de energia podem reduzir suas emissões de mercúrio em até 95%, melhorando o desempenho do carvão e da usina e otimizando os sistemas de controle para outros poluentes.

 

Lâmpadas fluorescentes

As lâmpadas fluorescentes produzem luz utilizável com muito mais eficiência do que as lâmpadas incandescentes e, portanto, podem ser muito úteis para reduzir o consumo total de energia de uma casa ou empresa. As lâmpadas fluorescentes compactas estão crescendo em popularidade, principalmente por esse motivo. No entanto, todas as lâmpadas fluorescentes contêm mercúrio e, portanto, devem ser manuseadas e recicladas com cuidado. As lâmpadas de diodo emissor de luz (LED), que também são energeticamente eficientes, são uma alternativa popular à iluminação fluorescente, e as LEDs não contêm mercúrio. Outra alternativa de iluminação eficiente e sem mercúrio é a lâmpada de luminescência estimulada por elétrons, que usa elétrons acelerados para estimular o fósforo para criar luz.

 

Pintura

O mercúrio foi durante muito tempo um ingrediente-chave em tintas de látex e outros tipos de tinta, com impactos negativos na saúde humana. Em 1989, um menino de quatro anos em Michigan, nos Estados Unidos, foi hospitalizado por vários meses com envenenamento por mercúrio depois de respirar vapores de tinta em sua casa recém-pintada. No ano seguinte, os Estados Unidos proibiram o uso de mercúrio em tinta látex para interiores. Uma análise publicada pela União Europeia em 2008 descobriu que o mercúrio ainda podia ser detectado nas tintas produzidas na Europa. No entanto, existem muitas alternativas acessíveis e eficazes amplamente disponíveis em todo o mundo. Verifique a etiqueta da sua tinta e escolha sempre um fornecedor confiável.

 

Termômetros

Os termômetros de mercúrio tradicionais foram inventados no século 18 pelo próprio Fahrenheit (Daniel Gabriel Fahrenheit, físico holandês). Sua invenção foi usada próximo a sua forma original por mais de 200 anos, mas após a Segunda Guerra Mundial os cientistas desenvolveram alternativas isentas de mercúrio. Hoje, os termômetros digitais estão amplamente disponíveis, embora suas pilhas-botão possam conter pequenas quantidades de mercúrio, por isso é importante reciclar os termômetros adequadamente depois que as baterias acabarem. Também é possível encontrar termômetros de líquido em vidro sem mercúrio com substâncias não-tóxicas quando ingeridas ou inaladas; esses termômetros devem ser rotulados como "livres de mercúrio".

 

Medidores de pressão arterial

É extremamente importante para profissionais da saúde poderem obter uma leitura precisa da pressão arterial, mas tradicionalmente a melhor maneira de fazer isso era usar um dispositivo que contenha mercúrio, o esfigmomanômetro de mercúrio. E embora esses dispositivos ainda sejam muito comuns em hospitais e consultórios médicos em todo o mundo, foram desenvolvidas alternativas sem mercúrio que provaram ser tão precisas e eficazes quanto os que contêm mercúrio. Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças recomendou que os esfigmomanômetros de mercúrio fossem substituídos por dispositivos digitais ou outras alternativas sem mercúrio. A União Europeia observou que, embora os dispositivos tradicionais estejam sendo gradualmente retirados de uso, alguns devem ser mantidos como padrão de referência para validar novos métodos de medição.

Ao optar por alternativas sem mercúrio, você pode ajudar a proteger as pessoas e o planeta dos efeitos tóxicos do mercúrio. Em conjunto, nossas ações individuais podem ter um impacto global monumental.

 

Quer saber mais? Visite o site da Convenção de Minamata, confira a Avaliação Global de Mercúrio de 2018 e obtenha todos os detalhes sobre a próxima Conferência das Partes.