05 Sep 2019 Story Mudança climática

Joan Carling: defensora diz que incêndios na Amazônia mostram necessidade de solidariedade global

Em setembro de 2019, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente irá homenagear os Campeões da Terra, importantes líderes ambientais dos setores público e privado e da sociedade civil que tiveram impacto positivo e transformador no ambiente. Aqui encontramos vencedores das edições anteriores do prêmio e mostramos como eles ainda estão fazendo a diferença em suas comunidades e por todo o mundo.

A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e uma peça vital no complexo quebra-cabeça ecológico que sustenta a vida na terra. Joan Carling ainda luta para encontrar as palavras certas para transmitir o que sente sobre os incêndios na floresta.

"Isso realmente... só me deixa com raiva", disse a renomada ativista dos direitos dos povos indígenas.

Carling, membro da tribo Kankanaey nas Filipinas, passou mais de duas décadas lutando pelos direitos dos povos indígenas e ver o que está acontecendo com as pessoas que procuram proteger a natureza deixa ela aflita.

"Mesmo com números baixos, são eles que protegem a Amazônia". "Dá uma sensação de impotência".

Carling vem trabalhando incansavelmente para garantir que as vozes de pessoas marginalizadas e isoladas do mundo sejam ouvidas. Em 2018, ela recebeu o prêmio de Campeã da Terra pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e dedicou aos seus colegas ativistas em todo o mundo.

"Muitos ativistas, especialmente nas Filipinas, viram o prêmio como uma afirmação de que estamos fazendo a coisa certa", disse ela. "Para mim, os verdadeiros campeões da terra são os povos indígenas da Amazônia que defendem suas posições... São povos sem rosto em todo o mundo que lutam para proteger o meio ambiente para a humanidade".

Carling está ciente do preço que pode pagar por suas ações. Em fevereiro de 2018, seu nome foi adicionado a uma lista governamental que a colocava como terrorista. Seu nome foi retirado dessa lista em janeiro deste ano, mas o assédio continuou.

Carling se juntou a outros ativistas indígenas e à Relatora especial das Nações Unidas sobre os direitos dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, para planejar uma campanha global de luta contra a matança e criminalização de ativistas de direitos indígenas e defensores ambientais.

Mais de três defensores foram mortos em todo o mundo todas as semanas em 2018, de acordo com o último relatório da Global Witness. O último número de mortos destaca os perigos que enfrentam aqueles que estão defendendo os direitos ambientais nos setores de mineração, extração de madeira e agricultura, bem como em outras indústrias extrativistas. 

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Apesar desses números terríveis, Carling vê sinais de esperança que as vozes dos povos indígenas sejam cada vez mais ouvidas. O papel central de administradores da natureza já vem sendo reconhecido, como no Relatório da Plataforma Intergovernamental Político-Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) deste ano.

Um resumo do relatório, divulgado em maio, disse que a natureza está em um declínio sem precedentes, com mais de um milhão de espécies em risco de extinção e com os alicerces de nossas economias, meios de subsistência, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida sendo corroídos. No entanto, com uma mudança significativa e transformadora, com os povos indígenas e comunidades locais inseridos nesse contexto, a natureza pode ser conservada, restaurada e usada de forma sustentável.

A avaliação foi baseada na revisão sistemática de cerca de 15.000 fontes científicas e governamentais além de uso do conhecimento indígena local.

Entre as suas extensas conclusões, se observou que pelo menos um quarto da área terrestre global é de propriedade, gerida, utilizada ou ocupada por povos indígenas. Mesmo sob enorme pressão, a parte gerida por povos indígenas e comunidades locais está sendo menos afetada do que as outras terras.

O relatório concluiu que cenários regionais e globais seriam beneficiados por uma consideração explícita das opiniões, perspectivas e direitos dos povos indígenas e comunidades locais.

O Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas também disse em um relatório este ano que os povos indígenas têm um papel fundamental a ser desempenhado no combate às mudanças climáticas, desde que seus direitos à terra sejam legalmente reconhecidos e protegidos.

"Isso nos coloca no centro do debate internacional para encontrar soluções para a mudança climática", disse Carling, que é membro e co-organizadora do Grupo de Povos Indígenas para o Desenvolvimento Sustentável. Mas ela sabe que as forças alinhadas contra os povos indígenas são formidáveis.

"Quando afirmamos os direitos à terra dos povos indígenas, eles não se encaixam bem com interesses econômicos e políticos. Precisamos fortalecer o movimento global de pessoas que se unem contra este tipo de poder irresponsável", disse ela, citando o exemplo do movimento estudantil inspirado pela jovem ativista sueca Greta Thunberg.

A mobilização da juventude dá esperança a Carling, que se preocupa com o tempo esgotando.

"Todas as pessoas na Terra sentem o impacto da mudança climática e se continuarmos com o atual modelo econômico, não vamos sobreviveremos aos próximos 50 anos", disse ela.

"Os líderes devem ouvir os povos indígenas e entender nossa perspectiva e como valorizamos a mãe natureza, não em termos econômicos, mas para o bem-estar da humanidade e do meio ambiente. Se nos derem espaço e nos escutarem, podemos mudar a direção para onde estamos indo", disse ela. 

O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, concorda que os políticos precisam fazer mais. Na véspera da Cúpula de Ação Climática de 23 de Setembro de 2019, António Guterres pediu aos líderes mundiais que se preparem para lidar com uma "emergência climática dramática", afirmando que o mundo tem os instrumentos, mas que falta vontade política.

Carling, que participou de algumas reuniões preparatórias para a Cúpula, espera ver mudanças urgentes.

Ninguém diz: "Este é o momento de agir em conjunto no espírito de solidariedade e ação global". Ainda estão todos confinados aos seus próprios interesses nacionais. Temos de ir além e as ações devem ser globais porque as alterações climáticas não têm fronteiras".

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Como alguns líderes populistas que estão no poder em vários países, estão mostrando muito pouco interesse em combater a mudança climática, Carling diz que é hora dos cidadãos enfrentarem o desafio, iniciando diálogos e procurando entender os medos e preocupações dos outros.

A mudança terá que vir de baixo para cima e levar em conta os pontos de vista dos povos indígenas e grupos marginalizados, diz Carling. A tomada de decisões sobre soluções climáticas deve incluir aqueles que são diretamente afetados e transformar o poder econômico e político global para que sejam responsáveis perante as pessoas.

Carling ajudou a estabelecer a Parceria Energética com Povos Indígenas que visa garantir que os projetos de energia renovável estejam totalmente alinhados com o respeito e a proteção dos direitos humanos, fornecendo pelo menos 50 milhões de povos indígenas com acesso a energia renovável até 2030.

"Muitas fontes de energia renovável, como parques eólicos e parques solares, estão em territórios indígenas. No entanto, a energia não é para nós... São empreendimentos antigos com apropriação de terras, falta de partilha equitativa de benefícios e violação dos direitos das pessoas. Os povos indígenas apoiam plenamente a transição justa dos combustíveis fósseis para a energia renovável e isso deve estar de acordo com a proteção dos direitos humanos e os princípios de equidade e justiça", disse ela.

No coração do sistema de crenças de Carling está a certeza de que os povos indígenas devem estar na frente e no centro da corrida contra a mudança climática. E não porque seja eticamente correto, mas porque eles têm as soluções.

"Não somos apenas grupos vulneráveis; somos atores, colaboradores e agentes de mudança... Se os líderes mundiais nos ouvirem, reconhecerem nossas contribuições, protegerem nossas terras e respeitarem nossos direitos, podemos ir muito longe".

Essa certeza dá esperança a Carling.

"Para mim, não há porquê ser pessimista. Eu sempre tento ver o lado bom das coisas porque senão, quem vai agir? Esse é o espírito do ativismo. Temos que persistir e fortalecer nossos movimentos por um mundo melhor".