03 Oct 2019 Reportagem Ecosystems and Biodiversity

Consultas são chave para superar os enormes desafios de restauração de terras degradadas

Photo by James Anderson/World Resources Institute

O mundo enfrenta enormes desafios de conservação da biodiversidade e das mudanças climáticas. Uma maneira de responder a esses desafios é por meio da restauração de terras degradadas.

Restoring landscapes—done properly in consultation with local communities, governments and scientists—has huge environmental, climate mitigation but also, importantly, economic benefits. It also contributes to many of the Sustainable Development Goals.

A 2015–2019 Global Environment Facility project, Building the foundation for forest landscape restoration at scale, implemented by the UN Environment Programme (UNEP) and executed by the World Resources Institute (WRI) in partnership with five countries (Ethiopia, India, Indonesia, Kenya and Niger) is an important contribution to landscape restoration.

“There is no single way to restore degraded land, without incorporating diverse factors—cultural, social, economic and topographical—coming into play in different countries and regions,” says Ulrich Piest, a UNEP ecosystems expert. “While tree-planting is an important aspect of landscape restoration in many settings, it is not a silver bullet.”

The project facilitates national commitments to restoration by enabling improved legal and policy conditions across sectors. The big goal: to enhance the integration of trees in agricultural landscapes, and to restore forests in ways that support strategies to avoid deforestation and defragmentation and promote climate-smart agriculture.

“Investing in reviving land delivers tremendous socio-economic returns to protect standing forests, but planning must include all relevant voices to implement effective restoration,” highlights WRI’s Fred Stolle, the project’s coordinator. “Input from community leaders, producers, governments at different levels, scientists and technicians provides critical information to make better choices and bring prosperity to rural communities.”

India

In India, 70 per cent of the population depend on agriculture and 82 per cent of farmers are smallholders, but much of their land is degraded. A first-of-its-kind online web portal, Restoration Opportunities Atlas, estimates that about 140 million hectares of land could be protected and restored in India. The country’s ample experience in rural development, watersheds and restoration interventions were mapped in the Atlas as a result of the project, which also supported planning to restore landscapes in Sidhi District, in the state of Madhya Pradesh. Around 360,000 hectares of land in the district could be regenerated by implementing at least eight restoration interventions.

“If restoration is implemented based on what we learned through this project and our consultations, 30,000 jobs could be created through six new value chains for six types of produce that come from trees. This could result in 3.75 million person-days of employment and US$10 million in wage income for the local communities,” says Ruchika Singh, of WRI India.

A restauração de paisagens - feita de forma adequada, consultando comunidades locais, governos e cientistas - tem enormes efeitos de mitigação ambiental e climática, mas também apresenta benefícios econômicos, além de contribuir para muitos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

O projeto de 2015-2019, Building the foundation for forest landscape restoration at scale, do Global Environment Facility, implementado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e executado pelo World Resources Institute (WRI) em parceria com cinco países (Etiópia, Índia, Indonésia, Quênia e Níger) é uma contribuição importante para a restauração de paisagens.

"Não existe uma única maneira de restaurar terras degradadas. Fatores culturais, sociais, econômicos e topográficos entram em cena a depender do país e da região, todos os quais devem ser incorporados", diz Ulrich Piest, especialista em ecossistemas do PNUMA. "Embora o plantio de árvores seja um aspecto importante da restauração da paisagem em muitos locais, não é uma panaceia".

O projeto facilita os compromissos nacionais de restauração ao permitir melhores condições legais e políticas em todos os setores. O grande objetivo: aprimorar a integração das árvores nas paisagens agrícolas e restaurar florestas, apoiando estratégias que evitem o desmatamento e a desfragmentação além de promover a agricultura de baixa emissão.

“A contribuição de líderes comunitários, produtores, governos em diferentes níveis, cientistas e técnicos fornece informações críticas para fazer melhores escolhas e trazer prosperidade às comunidades rurais”, destaca Fred Stolle, coordenador do projeto.

Índia

Na Índia, 70% da população depende da agricultura e 82% dos agricultores são de pequeno porte, mas grande parte de sua terra é degradada. Um portal on-line, o Atlas de Oportunidades de Restauração, o primeiro de seu gênero, estima que cerca de 140 milhões de hectares de terra possam ser protegidos e restaurados na Índia. A ampla experiência do país em desenvolvimento rural, intervenções em bacias hidrográficas e restauração foi mapeada no Atlas como resultado do projeto, que também apoiou o planejamento da restauração de paisagens no distrito de Sidhi, no estado de Madhya Pradesh. Cerca de 360.000 hectares de terra no distrito poderiam ser regenerados com a implementação de pelo menos oito intervenções de restauração.

“Se a restauração for implementada com base no que aprendemos nesse projeto e em nossas consultas, 30.000 empregos poderão ser gerados por meio de seis novas cadeias de valor para seis tipos de produtos provenientes de árvores. Isso pode resultar em US$ 10 milhões em renda para as comunidades locais”, diz Ruchika Singh, do WRI India.

Quênia

No Quênia, o projeto se concentrou no Condado de Makueni, com uma população de pouco menos de um milhão. “Era muito importante consultar os moradores para determinar quais intervenções de restauração seriam aceitáveis e também beneficiariam o maior número de pessoas”, diz Mary Mbenge, Diretora de Recursos Naturais, Meio Ambiente e Clima do Condado de Makueni. “Nós os consultamos por meio de um exercício de participação pública, em conjunto com o governo do condado, para priorizar as melhores opções de restauração”.

"Degraded land (foreground) and landscape being restored (background) in Makueni County, Kenya  Photo by Peter Irungu/World Resources Institute"

Etiópia

As imagens de satélite do Google Earth foram usadas em dois distritos da Etiópia, não apenas para entender as mudanças na cobertura arbórea ao longo do tempo, mas também para informar a implementação no terreno. O objetivo era cumprir as metas de redução de emissão de gases de efeito estufa, alcançar a segurança alimentar e impedir a sedimentação de corpos de água por meio de florestamento e reflorestamento, plantio de árvores em áreas agrícolas, ao longo de estradas e margens de rios e medidas de mitigação de erosão. Embora essas medidas tenham sido implementadas por muitos anos na Etiópia, os decisores distritais agora podem compartilhar seus dados de implementação extraídos das imagens de satélite para aumentar os esforços de restauração.

 

"Restoration intervention in Tigray, Ethiopia  Photo by Aron Simen/World Resources Institute"

Níger

No Níger, as pessoas são donas das terras, mas não das árvores que crescem sobre elas; portanto, podem não ver benefício algum em plantar árvores que não serão suas. Em qualquer situação, todas as partes interessadas precisam ser consultadas para que haja adesão local, regional e nacional e para que qualquer iniciativa de restauração seja eficaz. "Os desafios no atual contexto jurídico do Níger podem em breve ser transformados, graças à liderança engajada em nível nacional, resultado da abordagem consultiva fornecida pelo projeto de restauração", diz Salima Mahamoudou, do WRI, que trabalha no Níger.

"Consulting with the community to build restoration plan, Lido Village in Niger  Photo by Salima Mahamoudou"

O Níger é um ambiente severo para a restauração de paisagens, mas o país conseguiu um sucesso considerável na construção de sua parte da Grande Muralha Verde e na contribuição para a Iniciativa de Restauração da Paisagem da Floresta Africana (AFR100). Isso mostra que o plantio de árvores e outras iniciativas de restauração são possíveis quando o setor privado, o governo e a população local estão trabalhando juntos.

Durante décadas, muitos agricultores do Níger removiam os brotos que cresciam de velhos tocos de árvores e raízes para adicionar nutrientes ao solo e às plantas. Mas há 15 anos, Sakina Mati e Ali Neno Malam decidiram tentar algo diferente. Eles começaram a manter os brotos, identificando as hastes mais saudáveis ​​e aparando o resto. Essa poda seletiva e proteção de mudas, conhecida como regeneração natural assistida, estimula o crescimento de novas folhas e brotos de sistemas de raízes antigas e escondidas. Ela permite que as raízes das árvores puxem a água do subsolo profundo, irrigando as culturas e estabilizando o solo rico em nutrientes.

"Quinze anos atrás, eu não tinha árvores em minha terra e tinha que acordar muito cedo para procurar lenha para cozinhar", disse Sakina Mati à equipe do projeto. “Mas hoje em dia, temos mais de 150 árvores nas minhas terras agrícolas”. Os esforços de reabastecimento liderados por Sakina Mati, Ali Neno e sua comunidade permitiram que eles tivessem lenha, forragem para seus animais, e o excesso de madeira produzido desencadeou a criação de um mercado local de madeira para as aldeias vizinhas.

Indonésia

"O plantio de árvores em turfeiras provavelmente não é a melhor maneira de fazer a restauração de terras na Indonésia", diz Hidayah Hamzah, analista do WRI que esteve envolvido no projeto. A restauração da paisagem na Indonésia, como em outros lugares, está ligada a desafios socioeconômicos: as turfeiras precisam ser re-inundadas e os canais de água reabertos para restaurar adequadamente as turfeiras que, se pegarem fogo, liberarão enormes quantidades de CO2. A consulta foi muito relevante para reunir essas informações.

Experiencia de aprendizado

"O projeto foi uma ótima experiência de aprendizado", diz Mahamoudou.

"Aprendemos que o mapeamento de restauração deve se adequar ao país e deve se ligar à população local. Governos e doadores precisam estar convencidos de seu impacto socioeconômico positivo. Um dos pré-requisitos para o sucesso da restauração da paisagem é identificar os principais agentes para ajudar a desbloquear as atividades de restauração. Projetos de curto prazo não são a solução”, acrescenta ela.

Restaurar terras degradadas é apenas parte do quadro. Precisamos evitar a degradação da terra, abordando seus propulsores e tomar medidas proativas para evitar mudanças adversas na qualidade da terra não-degradada além de promover resiliência, por meio de práticas apropriadas de regulamentação, planejamento e gerenciamento.

A degradação da terra também pode ser reduzida ou mitigada em terras agrícolas e florestais por meio da aplicação de práticas de manejo sustentável.

“Sempre que possível, parte (mas raramente todo) o potencial produtivo e dos serviços ecológicos de terras degradadas podem ser restaurados ou reabilitadas por meio da assistência ativa à recuperação das funções do ecossistema”, diz Piest. "É aí que entra esse projeto".

A Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas 2021-2030, liderada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação e parceiros como Afr100, o Fórum Global de Paisagens e a União Internacional para a Conservação da Natureza, abrange ecossistemas terrestres, costeiros e marinhos. Como apelo global à ação, reunirá apoio político, pesquisa científica e força financeira para ampliar massivamente a restauração. Ajude-nos a remodelar a década.

Para mais informações, entre em contato com Fred Stolle: mailto:[email protected]