19 May 2020 Reportagem Ecosystems and Biodiversity

Sete hábitos que estão prejudicando a nossa saúde e como mudá-los

Photo by Unsplash/ kelly sikkema

Com o mundo balançado pelo COVID-19, os assuntos relacionados à nossa saúde estão chamando cada vez mais atenção.

De todas as questões expostas por essa pandemia, talvez a mais comovente seja o fato de que fizemos do mundo um lugar menos saudável, pois negligenciamos questões que nos acompanham desde grande parte do século passado. Estudos indicam que nossos estilos de vida e comportamentos afetaram o meio ambiente e, consequentemente, prejudicaram nossa saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) atribui 23% das mortes globais a ambientes não saudáveis e o Relatório de Riscos Globais do Fórum Econômico Mundial deste ano relacionou os cinco maiores problemas da humanidade ao meio ambiente.

Por isso, veja sete ações que prejudicam a natureza e afetam nossa própria saúde.

  1. Estamos respirando ar poluído.

O ar é a base de toda a vida humana. No entanto, de acordo com a OMS, nove a cada dez pessoas no mundo respiram ar sujo. Os poluentes microscópicos inalados derivados da emissão de diesel e da queima de resíduos sólidos, carvão, querosene e biomassa entram em nossos pulmões e passam para nossa corrente sanguínea, o que pode resultar em várias doenças. Ao mesmo tempo, a emissão de metano derivada da agricultura industrial, a produção de petróleo e gás e a queima de resíduos sólidos contribuem para o armazenamento de ozônio no solo, o que pode causar asma e outros problemas respiratórios crônicos. A poluição do ar é responsável por 7% das mortes por câncer de pulmão, 18% por doenças pulmonares, 20% por derrame cerebral e 34% por doenças cardíacas.

Além disso, mais de 90% das mortes relacionadas à poluição do ar ocorrem em países de baixa e média renda. Contudo, os países de alta renda também não estão imunes. De acordo com um relatório de 2020, muitas cidades nos Estados Unidos atingiram ou superaram seus próprios níveis de poluição por partículas inaláveis, sendo que quase metade da população estadunidense vive em áreas poluídas por ozônio ou por micropartículas.

No contexto da infecção por COVID-19, médicos especialistas alertam que problemas de saúde prévios, como a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) ou as doenças cardíacas, aumentam o risco de dano pulmonar. Além disso, um estudo recente concluiu que a longa exposição ao dióxido de nitrogênio – resultado da queima de combustíveis fósseis – pode contribuir para a fatalidade do COVID-19.

  1. Estamos bebendo água contaminada.

Uma pessoa precisa de 20 a 50 litros de água limpa para consumo e higiene pessoal básica todos os dias. Contudo, as águas em todo o mundo estão sendo contaminadas por resíduos domésticos, municipais e médicos, esgoto não tratado, escoamento de produção agrícola e descarga industrial. 80% das águas residuais retornam ao ecossistema sem serem tratadas ou reutilizadas. Isso coloca cerca de 1,8 bilhão de pessoas em risco de contrair cólera, disenteria, febre tifoide, poliomielite e outras complicações de saúde.

Desde 1990, a poluição está atingindo quase todos os rios da África, Ásia e América Latina. Diante dessa pandemia, a OMS é enfática ao afirmar que a higiene frequente e adequada das mãos é fundamental para prevenir infecções virais. No entanto, uma pesquisa com os dados disponíveis de 42 países indica que menos da metade da população desses lugares possui instalações básicas (água e sabão) para lavagem das mãos em suas próprias casas.

  1. Estamos comprometendo o valor nutricional dos alimentos que consumimos.

Uma dieta segura e saudável contribui para nossa saúde, nos protege da desnutrição, reduz o risco de doenças e fortalece nossa imunidade.

No entanto, o crescimento populacional e a urbanização levaram a um aumento nos problemas de saúde relacionados à má nutrição em todo o mundo. Enquanto cerca de 800 milhões de pessoas sofrem com a insegurança alimentar, 2,1 bilhões enfrentam a obesidade ou o sobrepeso. Isso ressalta que ter comida suficiente e ter alimentos nutritivos são dois desafios diferentes.

A produção intensiva e industrializada de alimentos reduziu o custo e aumentou a disponibilidade de produtos altamente processados ​​e pobres em nutrientes, de modo que 60% das dietas se baseiam em apenas três cereais: arroz, milho e trigo. Assim, 2 bilhões de pessoas carecem de vitaminas e minerais essenciais para o crescimento e desenvolvimento, como vitamina A, ferro e zinco.

Segundo a OMS, quase uma a cada três pessoas sofre de desnutrição e "grande parte da população mundial sofre de doenças relacionadas à alimentação, como problemas cardíacos, derrame, diabetes e câncer".

  1. Estamos consumindo substâncias nocivas.

Além de contribuir com a poluição ambiental, o uso de pesticidas na agricultura intensiva pode trazer sérios prejuízos para a saúde humana. Nos países em desenvolvimento, 25 milhões de pessoas sofrem anualmente de intoxicação por agrotóxicos. Embora os pesticidas considerados nocivos tenham sido banidos dos países signatários da Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes de 2001, seus resíduos podem permanecer no solo e na água por anos.

O processamento de alimentos para melhorar sabor, aparência e conservação e as embalagens também apresentam riscos para nossa saúde. Um estudo de 2015 da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da Organização Mundial de Saúde classificou a carne processada como cancerígena, vinculando-a ao câncer colorretal. Além disso, alguns países permitem produtos químicos desreguladores do sistema endócrino na composição de garrafas plásticas e latas metálicas, o que pode produzir efeitos adversos no desenvolvimento e nos sistemas neurológico e imunológico.

  1. Estamos nos expondo cada vez mais a doenças zoonóticas, como o COVID-19.

Ao alterar os habitats naturais da vida selvagem para fins de habitação, agricultura e indústrias, os seres humanos reduziram as barreiras naturais que os separariam da vida selvagem e criaram oportunidades para doenças como o COVID-19 serem transmitidas de animais para seres humanos. Essa situação é agravada pelas mudanças climáticas, que alteram temperatura, umidade e sazonalidade e afetam diretamente a sobrevivência dos micróbios, e pelas viagens internacionais, que favorecem com que doenças originárias em um determinado país cheguem em outras partes do mundo em poucas horas.

  1. Estamos experimentando maior resistência a medicamentos antimicrobianos.

Desde meados do século XX, os tratamentos antimicrobianos têm sido utilizados na medicina humana e veterinária. Em muitas partes do mundo, essas substâncias também são adicionadas à alimentação animal para promover o rápido crescimento dos rebanhos. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), "o uso de medicamentos antimicrobianos na produção e saúde animal deve dobrar nos próximos 20 anos".

Como consequência, essas substâncias se tornaram menos eficazes como medicamento, tanto para os animais quanto para os humanos. Anualmente, aproximadamente 700.000 pessoas morrem por conta de infecções resistentes a medicamentos em todo o mundo.

  1. Estamos reduzindo a diversidade de medicamentos naturais.

Estima-se que 60.000 plantas, animais e micróbios sejam utilizados por suas propriedades medicinais, nutricionais e aromáticas em todo o mundo. Eles compreendem uma grande porção de produtos farmacêuticos. Nos Estados Unidos, 118 dos 150 medicamentos mais prescritos têm bases naturais e os produtos naturais têm sido particularmente importantes para terapias contra o câncer.

No entanto, como resultado de ações humanas – como colheita excessiva, alternância de habitats e mudanças climáticas –, os recursos baseados em plantas silvestres estão em declínio. Em todo o mundo, cerca de 15.000 espécies de plantas medicinais podem estar ameaçadas de extinção. Além disso, estudos indicam que podemos estar perdendo pelo menos um medicamento importante a cada dois anos.

Só podemos cuidar de nós mesmos se cuidarmos do meio ambiente.

Um artigo publicado pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos mostrou que, na ausência de mudanças sérias e imediatas em nossos comportamentos, “as pandemias provavelmente acontecerão com mais frequência, se espalharão mais rapidamente, terão maior impacto econômico e matarão mais pessoas”.

O COVID-19 evidenciou a interdependência dos seres humanos e do meio ambiente. Como uma em cerca de 8 milhões de espécies no planeta, somos uma parte essencial da complexa, delicada e equilibrada teia da vida. Danos a uma parte podem perturbar o equilíbrio do sistema como um todo.

Mesmo assim, a pandemia também representa uma oportunidade para planejar uma melhor recuperação e reconstruir o futuro.

Para garantir que nos recuperemos melhor, as Nações Unidas apoiarão os governos no cumprimento da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e do Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas.

Reconhecendo a natureza como a solução para alguns dos desafios mais prementes da humanidade, o PNUMA e seus parceiros estão lançando a Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas 2021-2030, um esforço global para impedir, interromper e reverter a degradação dos ecossistemas em dez anos. O PNUMA também se uniu com líderes mundiais para desenvolver um novo e ambicioso Marco Pós-2020 de Biodiversidade. Além disso, o Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho) envolverá governos, empresas, celebridades e cidadãos para repensarem o relacionamento com a natureza e convocará os líderes mundiais para colocarem a natureza no centro de suas decisões.

 

Para imprensa, por favor entre em contato

Roberta Zandonai, Gerente de Comunicação Institucional, PNUMA, [email protected]

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