10 Sep 2019 Editorial Ecosystems and Biodiversity

Sim, é possível preservar a Amazônia

Por Leo Heileman, Diretor Regional do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente

A Amazônia é a maior floresta tropical do nosso planeta. Abriga 33 milhões de pessoas de nove países, além de uma biodiversidade extraordinária. Sua vegetação densa e seus solos úmidos contêm 140.000 milhões de toneladas de carbono, capazes de incidir negativamente no clima global caso sejam liberadas na atmosfera.

Preservar a Amazônia é uma questão de interesse global e deve se tornar uma das grandes prioridades de nosso tempo.

Nos últimos 50 anos, já perdemos 17% desta floresta vital. Apesar dos esforços para protegê-la, registros apontam um aumento alarmante no desmatamento, cujos efeitos se intensificarão devido à crise climática.

Os incêndios vorazes que estão devastando grandes porções da Floresta Amazônica são evidências de que a expansão agrícola insustentável e a crescente demanda da mineração, juntamente com condições climáticas cada vez mais extremas, estão acelerando a degradação dos ecossistemas.

Isso é verdade na Amazônia e também em outras paisagens vitais, como no Ártico, onde mais de 100 grandes incêndios foram registrados desde junho. Ambos os lugares, embora diferentes e distantes, sofrem os efeitos de um aquecimento global sem precedentes. O último mês de julho pode entrar para a história como o mês mais quente já registrado, e é possível que 2019 se torne um dos cinco anos mais quentes dos últimos séculos.

Nesse contexto, os esforços para salvar a Amazônia precisam abraçar tanto o global quanto o local. A mudança nas políticas nacionais de uso da terra e a luta contra a crise climática devem acelerar. Os países que compartilham o bioma Amazônia devem fortalecer a governança de suas florestas, integrar os setores produtivos e promover atividades econômicas sustentáveis, sem as quais seria impossível preservar os ecossistemas e gerar benefícios socioeconômicos locais.

Todas essas nações têm experiências bem-sucedidas de conservação. Entre 2004 e 2012, seus esforços ajudaram a reduzir o desmatamento na Amazônia em 80%. Há importantes lições aprendidas sobre a eficácia no manejo e governança de áreas protegidas, e devemos continuar avançando, em estreita cooperação com os Estados da região e com as 400 comunidades indígenas do bioma, que podem fornecer grandes contribuições para a construção de soluções inovadoras baseadas na natureza.

Sim, é possível preservar a Amazônia e sua biodiversidade. Precisamos de compromissos e medidas ousadas ​​para aumentar o monitoramento dos ecossistemas, restaurar as áreas degradadas e criar um mercado vibrante para as atividades produtivas sustentáveis, como por exemplo os produtos amazônicos não madeireiros.

A Cúpula de Ação Climática, convocada pelo Secretário-Geral da ONU, António Guterres, no dia 23 de setembro, em Nova York, e a Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP 25), que será sediada pelo Chile entre os dias 2 e 13 de dezembro, são as oportunidades de levar esses compromissos ao mais alto nível.

Antes da reunião no Chile, outra relevante instância de decisão ocorrerá na América Latina: a Pré-COP25. O evento será promovido em outubro pela Costa Rica, um país com reconhecida liderança ambiental, e durante o encontro serão realizadas negociações estratégicas sobre o clima.

As discussões sobre o Marco Global da Biodiversidade pós-2020 oferecem outro espaço para repensar os modelos de conservação e uso sustentável de biomas estratégicos, como a Amazônia. Da mesma forma, a nova Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas (2021-2030), que busca incrementar a recuperação de biomas em grande escala, fornece uma plataforma prática para avançar medidas eficazes contra a degradação da Amazônia.

Sem a Amazônia e sem as outras florestas tropicais do planeta, não podemos limitar o aquecimento global a 2°C - muito menos a 1,5°C -, o que tornará impossível cumprir os compromissos do Acordo de Paris. Não temos tempo a perder.

Este artigo de opinião foi previamente publicado nos seguintes jornais latino-americanos e caribenhos: Clarín da Argentina, Barbados Today de Barbados, Correio Braziliense do Brasil, La Razón da Bolívia, La Tercera do Chile, El Tiempo da Colômbia, La República da Costa Rica, El Comercio do Equador, Prensa Gráfica de El Salvador, Prensa Libre da Guatemala, El Universal do México, El Nuevo Diario da Nicarágua, La Prensa do Panamá, El Peruano do Peru, El Observador do Uruguai e El Universal da Venezuela.